quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Um novo começo

Dezessete anos, quatro meses e três dias. Vinte e cinco cadernos que lhe serviram como diário, um travesseiro que escutou todas as suas confissões com atenção e um cobertor que lhe abraçou todas as vezes que ela chegou em casa tarde demais, com a maquiagem borrada e muitas palavras entaladas na garganta. Cinco amigos verdadeiros para lhe secar as lágrimas e apontar o caminho certo.

Setenta e três canetas multicoloridas em sua coleção, formando um verdadeiro arco-íris na caixinha de veludo onde as guardava... E quinze postais que ele lhe mandara quando aquele algo ainda parecia ser amor. Muitos gritos que apenas as paredes ouviram e algumas palavras que lhe acompanhariam, ela sabia, a vida inteira. Sua família não era a que dividia com ela aquele teto de vidro – era aquela que lhe esperava na esquina mais próxima todas as manhãs para lhe oferecer um trago, um gole e uma piada ruim.

E agora... O fim. Dezessete anos, quatro meses e três dias da sua vida desperdiçados em uma cidade pequena demais para os seus sonhos, com muitas pessoas que não mereciam o seu sorriso e umas poucas que faziam a sua vida valer a pena... E aquele era o fim. Era ali, naquele parque, que ela colocaria um ponto final naquele capítulo de sua história.

Abraçara com carinho cada um dos seus amigos, dividira entre ele os seus bens que não poderiam lhe acompanhar naquela jornada e tomara o último gole, dera o último trago, rira da última piada ruim... A seus pais? Um bilhete de apenas duas palavras: Adeus, enfim! E com nada mais que uma mochila nas costas e algumas economias no bolso, ela estava deixando tudo aquilo para trás... O mundo do qual queria se livras e as poucas coisas que iriam lhe fazer falta. Não estava fugindo de casa... Estava fugindo de uma vida inteira.

“Está pronta?”, a voz veio de algum ponto às suas costas.

Ela girou rapidamente em seus calcanhares, pondo-se de frente para a única coisa que ela não poderia deixar naquela cidade – sem contar, é claro, o par de All Star que estava em seus pés. Sorriu para a sua irmã – mais que isso: sua melhor amiga – atando o braço ao seu e pegando a passagem que ela lhe estendia: Uma passagem de avião só de ida... Uma chance única de realizar todos os seus sonhos. E todas as dúvidas desapareceram.

“Sempre estive”, respondeu simplesmente.

E, juntas, pularam a cerca que as separava do resto das suas vidas e buscaram a moita atrás da qual estavam as suas bicicletas. E aquele era o fim. Não... Aquele era apenas o começo.



"Vamos fugir
Pra outro lugar, baby
Vamos fugir
Pra onde quer que você vá
Que você me carregue..."

(Vamos Fugir - Skank)



Post feito para a 53ª Edição Visual do Projeto Bloinquês. (:

5 comentários:

Rafa Sady disse...

Preciso dizer que eu amei? (:
Por algum motivo que principalmente vc não faz ideia, tenho uma atração muito grande pela ideia de fugir de casa. Acho que o meu bilhete seria exatamente assim, só preciso fazer dezessete anos, quatro meses e três dias de idade, e arranjar uma mala grande o suficiente pra caber vc ;p
:*

Tay disse...

Ficou tão bom que eu estou quase desistindo de participar!!

Máh.rii '-' disse...

Ficou muito legal.Seus textos são inspiradores.

Larissa de Freitas disse...

Preciso dizer que eu amei? (: 2

Fernanda Zanol. disse...

Que lindo. Às vezes dá muita vontade de fugir mesmo, mas é preciso muita coragem também.

Tenho certeza que tu vai ir muito bem com esse texto!
beijão :*