Os minutos se passavam devagar, cada um deles parecendo conter dentro de si uma eternidade. A madeira escura da porta estava ali, bem diante dos meus olhos - era a porta que eu passara os últimos meses esperando para encarar novamente. Segurava a chave com tamanha firmeza que os nós dos meus dedos estavam brancos e, apesar disso, o único ruído que quebrava o silêncio era o leve tilintar do chaveiro enquanto minha mão tremia.
"Será que vão me odiar pelas escolhas que eu fiz?", minha voz soou baixa e insegura.
Seus passos soaram altos como trovões na quietude do hall quando ela aproximou-se por trás, passando os braços pela minha cintura e repousando suavemente o queixo no meu ombro. Senti seu hálito quente em minha bochecha - as batidas aceleradas e irregulares do meu coração distoavam completamente dos batimentos ritmados do seu.
"Bobagem", sentenciou ela, em um murmúrio confiante. "Eles sentem sua falta. Eles amam você. Você não fez nada de errado. Eles não têm motivos para te odiar".
"Espero que eles aprendam a amar você tanto quanto eu amo", lhe confidenciei, e não pude deixar de sorrir ao ouvir seu riso baixo e envergonhado.
Deixei minha mão correr até seu queixo, puxando o rosto dela com delicadeza para mais perto do meu até que nossos lábios se tocassem em um beijo terno. As borboletas em meu estômago se agitaram - como aquilo podia ser considerado errado se me fazia sentir tão bem? Realmente importava se éramos duas garotas quando éramos tão felizes juntas?
Inspirei profundamente - seu perfume estava em todos os lugares. Hesitei. Senti sua mão em meu braço, empurrando-o levemente para frente. Suspirei, vencida. Enfiei a chave na fechadura e girei-a. A porta rangiu ao abrir-se.
"Mãe? Pai?", chamei, ouvindo o som de risos e cadeiras arrastando-se no chão como resposta. "Precisamos conversar..."
[Texto escrito para o Bloinquês]
Foi então que vi você.
Há um mês
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