sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Abandono.


Na mochila, apenas algumas mudas de roupa, algum dinheiro enrolado em uma meia velha e um livro que pudesse distraí-la do que estava fazendo. Ela ficou parada durante alguns instantes, hesitando, duvidando, arrependendo-se... Então terminou de amarrar os cadarços e levantou-se silenciosamente.

No escuro do quarto, observou a silhueta que repousava tranquilamente do outro lado da cama... Uma lágrima rolou pelo seu rosto, indo brincar no sorriso triste que brotara em seus lábios. Aproximou-se alguns passos, curvou-se sobre a cama e deixou que seus dedos, por um instante, afundassem nos cabelos da jovem e passeassem por sua bochecha. Uma vez mais, parou, pensou... Depositou um beijo leve em sua testa e afastou-se, tomando cuidado para não despertá-la dos seus sonhos.

Suspirou. Tateou a mesinha de cabeceira, em busca de papel e caneta, e rabiscou poucas palavras. Ainda ajoelhada ao lado da cama, enrolou o pedacinho de papel e prendeu-o em sua aliança fina e prateada, deixando ambos sobre o travesseiro onde costumava deitar-se. Atravessou o quarto sem olhar para trás e ganhou o corredor em poucos instantes. Precipitou-se para fora da casa e inspirou profundamente o ar noturno. Chovia - ela não se importava.

Na manhã seguinte, tudo que ela encontraria seria um lado da cama vazio, uma aliança abandonada e as palavras "Eu sinto muito... Não dá mais" ecoando na solidão do quarto.

[Para ler ouvindo: Breathe - Taylor Swift feat. Colbie Caillat]
 
"I see your face in my mind as I drive away
'Cause none of us thought it was gonna end that way
People are people and sometimes we change our minds
But it's killing me to see you go after all this time..."

domingo, 1 de agosto de 2010

Mind Games.




- Então... Você voltou para me visitar. - O rapaz murmurou, sentando-se em uma posição mais confortável no catre pequeno e sujo. Ele sorriu.

A jovem aproximou-se alguns passous e parou, fitando-o por trás das grades. Involuntariamente, seus lábios curvaram-se em um sorriso em resposta ao dele. Ela não reprimiu-se por isso.

- Tinha que vir. - Ela respondeu, sentindo o olhar do rapaz analisar cada traço do seu rosto. - Afinal, nossa relação durou tanto tempo...

- Sentiu minha falta? - Ele arriscou, levantando-se e aproximando-se dela com passos firmes.

Ela fez que não com a cabeça, mantendo um sorrisinho misterioso nos cantos dos lábios. Ele estendeu as mãos, apoiando-as nas barras de metal. Ela imitou o seu gesto, repousando as mãos sobre as dele. Não disseram nada durante alguns instantes, trocando farpas e carícias apenas através dos olhos.

- Encontrei alguém melhor. - Ela explicou, dando de ombros minimamente. - Você sempre disse que não era o meu príncipe encantado e estava certo.

- Veio se despedir? - Ele tentou novamente. Dessa vez, o aceno de cabeça foi afirmativo.

- Espero que possamos ser amigos... Quando você sair daí. - Ela indicou a cela com a cabeça. Ele concordou silenciosamente e eles trocaram um sorriso cúmplice, compartilhando memórias.

Ela passou os braços pelas grades até que as suas mãos tocassem o rosto dele, as pontas dos seus dedos sentindo a barba por fazer, a textura da pele, dos lábios, dos cabelos. Ele aproximou-se, sem muita hesitação, e beijou a palma de sua mão. Ela afastou-se, ainda sorrindo.

- Você vai sentir minha falta. - Ele alertou, dando-lhe um sorriso triste.

- Eu vou sentir sua falta. - Ela lhe confidenciou, já rumando para a saída. - Mas por enquanto estou melhor sem você, Medo.

E assim, sem olhar para trás, ela voltou a cruzar as ruas da cidade. Sabia que algum dia Medo seria solto... Esperava que, quando esse dia chegasse, ela já estivesse pronta para ter uma relação madura com ele - uma amizade onde ele pudesse aceitar sua relação com a Liberdade e ela pudesse perdoá-lo por ter matado a Coragem.

Por enquanto, talvez fosse melhor daquele jeito... Apenas ela e sua Liberdade, descobrindo a vida juntas.


Observação: Texto feito para o Bloínquês.